A Missão
de Heiner Müller
Direção: Luiz Pazzini
Realização: CPAC / Grupo Ya'wara (MA)
Estreia: 1998
Página atualizada em 13/03/2026
Foto: Márcio Vasconcelos
sinopse
A Missão, lembrança de uma revolução, de Heiner Müller, provoca uma reflexão sobre a história do poder. Aborda problemas de interesse da América Latina, temas relativos à dominação-colonização do processo escravagista, destacando o papel do negro no processo revolucionário, num contexto histórico que tem como pano de fundo os ideais da Revolução Francesa e sua influência no mundo contemporâneo, evocando cenicamente a revolta de pessoas escravizadas do Caribe. A encenação de A Missão tornou-se um desafio para o CPAC quanto à encenação do texto, à pesquisa que abrange diversas áreas do conhecimento e à pesquisa acerca da atuação cênica.
A democracia como tema, modo de produção e relação com o público: a missão artístico-pedagógica do teatro de Luiz Pazzini
A montagem de A missão surge no âmbito do Curso de Licenciatura em Educação Artística da UFMA com o grupo Ya’wara, no Centro de Pesquisa em Artes Cênicas do Maranhão (CPAC-MA), no Programa de Extensão “Pensar-Fazer Teatro no Maranhão”. Tendo a universidade pública como ponto de partida, deu-se o processo de criação da montagem realizada pelo ator, diretor e professor Luiz Pazzini (1953-2020). Embora se possa afirmar que o espetáculo realizado a partir de A missão, lembrança de uma revolução, do dramaturgo alemão Heiner Müller, estreou no Teatro Arthur Azevedo em 1998, Pazzini faz uma certa ressalva com relação à ideia de “estreia”. Ele argumenta que esse não era o objetivo do processo criativo, que se deu como um “aprendizado em constante mutação” (2022, 16).
A estrutura dramatúrgica da peça, constituída por fragmentos, uma característica da linguagem do teatro de Heiner Müller, permitiu que o grupo fizesse apresentações pontuais, compartilhando o processo. A exposição dos procedimentos do teatro na linguagem do espetáculo dá a tônica de que a cena está sempre em construção. Na época, a ideia de work in progress estava em voga no vocabulário do teatro de pesquisa e nas universidades. Essas apresentações do processo não se restringiram à comunidade acadêmica da UFMA. O grupo interagiu com diversos públicos, em eventos políticos promovidos por movimentos sociais, como o MST, e em eventos culturais. A proposta inicial da encenação era a de um espetáculo itinerante, o que se deu nos laboratórios realizados nas ruínas e outras localidades da cidade histórica de Alcântara, vizinha de São Luiz. E mesmo nas funções subsequentes à estreia, os fragmentos eram rearranjados, de modo que o espetáculo estava sempre se refazendo, dado o caráter fundamentalmente experimental do trabalho.
Na peça de Heiner Müller, missionários franceses enviados à Jamaica logo após a Revolução se deparam com a traição dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade diante das revoltas dos escravizados e da barbárie do projeto colonial. Ao montar essa peça, Pazzini (Luiz Roberto de Souza, nas suas publicações acadêmicas) estava propondo um olhar crítico para a história do Brasil e da América Latina, para o Brasil dos anos 1990 e os movimentos de disputa pela democracia naquele momento, num país que apenas há cerca de uma década tinha recuperado o direito a eleições diretas e o primeiro presidente eleito dessa maneira já tinha renunciado diante da certeza de um impeachment. A peça também convocava a memória das insurgências no território maranhense, como a Revolta da Balaiada e os movimentos dos povos escravizados na região – temas a que o diretor se dedicou a pesquisar mais intensamente em trabalhos posteriores.
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Abimaelson Santos, professor da UFMA, aponta A missão como “a obra que marcou a inserção maranhense na cena contemporânea”. (2013, 64) A ideia de “inserção” é um aspecto relevante para se pensar as relações de poder na geopolítica brasileira e na geopolítica das artes. Ela pressupõe um dentro e um fora desse recorte que está sendo chamado de cena contemporânea. Na historiografia hegemônica do teatro brasileiro, essa foi a década dos chamados “grandes encenadores”. A escritura cênica estava em alta na hierarquia simbólica dos elementos da cena, reafirmando a primazia da encenação um século depois do surgimento desse conceito. Até quando se tratava da montagem de um texto previamente escrito por um autor moderno conhecido, o que estava em jogo era a marca do diretor – geralmente, no masculino singular mesmo, embora algumas mulheres tenham furado esse bloqueio. A estética da pós-modernidade estava despertando curiosidades e polêmicas nos estudos e projetos de muitos artistas e pesquisadores em cursos de artes cênicas daquela época. O cenário da reflexão teórica sobre teatro que chegava ao Brasil como influência internacional apontava para a valorização de uma ideia de teatro em que a elaboração formal era mais relevante que as questões temáticas, por assim dizer. Nesse sentido é importante observar que, no discurso de Pazzini, uma coisa não excluía a outra: investigação formal, reflexão histórica e questionamento político estavam presentes no processo de pesquisa e formação que foi a montagem de A missão.
A linguagem pronunciadamente urbana da encenação de Pazzini foi uma característica marcante do projeto. O grupo enfrentou resistência, afinal, é comum que se pense e que se defenda que o teatro feito no Maranhão – bem como em outros estados no Norte e Nordeste do país ou em territórios considerados periféricos pela lógica colonial/imperialista – deve estar dentro de determinados limites da linguagem considerada legítima do ponto de vista local, muitas vezes com o argumento de que se não for desse modo, o público “não entende” ou “não gosta”. A pressuposição de que já se sabe o que interessa ao público, no singular, determina que todo o público de uma localidade tem o mesmo gosto e a mesma noção de teatro e que esse público supostamente homogêneo só se interessa pelo que já conhece.
No Brasil, é bastante evidente a estigmatização da cultura de determinadas regiões, mas isso não se dá apenas de fora para dentro. Os clichés são também internalizados, como se vê em A invenção do Nordeste, tanto no livro de Durval Muniz quanto na peça que o Grupo Carmin, de Natal, estreou em 2016 – e que também faz parte do recorte curatorial do projeto O teatro e a democracia brasileira. Onde há produção artística e disputa de narrativas, imaginários e recursos, há discursos conservadores contra espetáculos de caráter experimental, em defesa de uma relação unívoca com um público que é tomado como uma massa que pensa e sente em uníssono. As mudanças de fluxos de atenção que se radicalizaram com as aceleradas alterações nos meios de comunicação na virada do século foram um imenso fator de fragmentação dos públicos das artes cênicas, mas o que comumente se diz no teatro é que foram os artistas que espantaram o público com poéticas consideradas herméticas.
Enfrentando esse preconceito, o projeto reivindica, tanto para a prática artística da cidade quanto para os diferentes públicos de São Luís e do Maranhão, o direito à complexidade, à diferença, à singularidade, ao acesso a noções de teatro imprevistas, à capacidade de lidar criticamente com linguagens que não são a de produtos culturais facilmente comercializáveis. Pazzini se identificava com o pensamento de Heiner Müller com relação a isso. Ele comenta:
Outro ponto que ressaltamos na proposta teatral de Heiner Müller, e que nos interessa sobremaneira, é como ele trabalha o imaginário do leitor/espectador, pois como ele mesmo diz, as sociedades capitalistas, ou melhor, todas as sociedades industrializadas, incluindo a RDA, tendem a reprimir e instrumentalizar a imaginação, e para ele, a arte tem uma tarefa eminentemente política hoje, pois que ela necessita precisamente mobilizar a imaginação destes leitores/espectadores das obras de arte. (SOUZA, 2024, 40)
Assim, o que esse espetáculo aporta para um debate sobre a democracia no Brasil extrapola a abordagem temática que a perspectiva histórica da peça pode ter levantado na época da sua montagem. Aqui se percebe a reivindicação do direito à pesquisa formal, à especialização, à participação em um circuito simbólico mais amplo, ao exercício da experimentação no contexto da profissionalização de artistas da cena. Por outro lado, o projeto também afirma o direito à imaginação, ao manejo da linguagem por parte do público enquanto cidadãos e cidadãs. Realizar um espetáculo com uma poética complexa foi um investimento na sensibilidade e na atitude crítica do público e, ao mesmo tempo, uma afirmação do reconhecimento de que essa sensibilidade existe – e precisa ser convocada.
Referências:
PEREIRA, Abimaelson Santos. Transgressões estéticas e pedagogia do teatro: o Maranhão no século XXI. São Luís: EDUFMA, 2013.
SOUZA, Luiz Roberto. “A recepção de Heiner Muller no Brasil através das encenações de A missão” (2022). Revista Rascunhos – Caminhos Da Pesquisa Em Artes Cênicas, 9(1), 32-50. https://doi.org/10.14393/issn2358-3703.v9n1a2022-03
VASCONCELOS, Gisele. “O salto é belo, também o impulso: A missão do Pensar-Fazer Teatro no Maranhão” (2022). Revista Rascunhos – Caminhos Da Pesquisa Em Artes Cênicas, 9(1), 51-68. https://seer.ufu.br/index.php/rascunhos/article/view/58355
Daniele Avila Small é pesquisadora e curadora do projeto O teatro e a democracia brasileira.
vídeos
A MISSÃO | Teatro Arthur Azevedo (MA) | Parte 1
A MISSÃO | Teatro Arthur Azevedo (MA) | Parte 2
depoimentos
Ficha técnica
Texto: Heiner Müller
Tradução: Fernando Peixoto
Produção executiva: Gisele Vasconcelos
Assessoria de produção: Maria Ethel, Guilherme Telles, Abdel Santos
Encenação: Luiz Pazzini
Elenco: Adbel Santos, Adélia Strentzke, Auro Juriciê, Dathy Bezerra, Gisele Vasconcelos, Guilherme Telles, Luiz Pazzini, Maria Braga, Maria Ethel e Mônica Hingrid
Coreografia: Guilherme Telles
Plano de luz: Marcelo Flexa
Produção de vídeo: Condor
Projeções: Murilo Santos
Figurinos: Cláudio Vasconcelos
Assessórios: Dathy Bezerra, Mônica Ingrid, Auro Juriciê, Adélia Strentzke
Orientação vocal: Alberto Dantas
Fotografia: Márcio Vasconcelos
Assessoria de marketing: Opendoor
Assessoria de imprensa: João Otávio
Artigos e trabahos acadêmicos
O pós de "A Missão"
O processo de montagem deste espetáculo gerou repercussões que se estenderam nas décadas posteriores, na trajetória de Luiz Pazzini e, por consequência, na formação de professores e artistas maranhenses. Isso porque o contato com a poética do fragmento impulsionou o professor-encenador a continuar a pesquisa. Durante entrevista concedida em 2017, ele ressaltou o impacto da obra de Muller em sua jornada:
A “poética dialética do fragmento” mülleriana, é um portal intertextual. Só fui tomar conhecimento das dimensões ética-estética-política quando realizei a minha dissertação de mestrado na ECA-USP, voltando ao berço de minha formação em Teatro, com a análise de três encenações de A Missão no Brasil. Voltando do mestrado, só me restava continuar a pesquisa, socializando meus conhecimentos com os discentes da Licenciatura, o que deveria fazer todo docente – pesquisar! Os “materiais intertextuais” que foram utilizados em A Missão, que tem o subtítulo sugestivo de “Lembranças de uma revolução”, foram estudados e colocados em cena com a contribuição fundamental dos discentes maranhenses em quase duas décadas de pesquisa. (Souza, 2017, p. 3)
Luiz Pazzini realizou o mestrado entre 1999 a 2001, produzindo a pesquisa Heiner Müller no Brasil: a recepção de A Missão (1989 – 1998). Ao retomar às aulas na UFMA, seguiu utilizando o espaço da aula para a prática artística, engajando os estudantes a pesquisarem com ele a linguagem do teatro, até que cria, em 2001, o grupo de teatro Cena Aberta, voltado à pesquisa da linguagem do teatro por meio da relação entre ator/atriz, pesquisador (a) e educador (a).
Pazzini coordenou o grupo até 2020, ano de seu falecimento, conduzindo a montagem de dezenas de experimentos, espetáculos e projetos de extensão, com estudantes, professores, artistas e não-artistas. Experiências que inspiram, até hoje, a realização de pesquisas e a publicação de artigos e livros.
Atualmente, os artistas do Cena Aberta mantêm o Memorial Luiz Pazzini, desenvolvendo processos artísticos e educacionais fundamentados na intersecção entre teatro e memória. Outra ação do projeto é a salvaguarda de um vasto acervo composto por documentos que narram a trajetória do mestre-encenador, dentre eles: arquivos do espetáculo A Missão, centenas de livros, cartas de cunho pessoal e artístico-pedagógico, poemas, desenhos de iluminação e cenografia, anotações de estudo, fotografias, vídeos, matérias jornalísticas, materiais de divulgação de espetáculos, objetos e figurinos.
Ademais, o coletivo continua a pesquisa da linguagem do teatro com a montagem de espetáculos, como o Memórias em Maranhês: a casa, construído numa perspectiva germinada pelo pensar/fazer teatro de Pazzini: um teatro como palco de memórias!
SOUZA, Luiz Roberto de. Entrevista Teatro e Memória: cedida a Tissiana dos Santos Carvalhêdo em correio eletrônico, São Luís – MA, 2017.
CPAC e o grupo Ya'Wara
O grupo Ya’Wara era o núcleo central do Centro de Pesquisa em Artes Cênicas – Cpac – MA. De 1996 a 2002 o CPAC foi formado por alunos (as) do curso de Licenciatura em Artes Cênicas da Universidade Federal do Maranhão, artistas da comunidade e professores (as) da instituição, o grupo desenvolveu atividades de pesquisa teórico-prática, sobre a linguagem cênica, à luz de teóricos do teatro do século XX, abrangendo a montagem de peças teatrais e trabalhos de extensão na comunidade. O CPAC e o Programa de Pesquisa O Pensar-Fazer Teatro no Maranhão foram projetos conduzidos pelo mestre encenador, Luiz Pazzini em prol do sonho de construir um espaço de investigação teatral, em fins dos anos 90. A crença no indivíduo que constrói dentro do coletivo e a busca de uma metodologia que não existe desvinculada de uma disciplina grupal e da autodisciplina orientaram a práxis teatral de um amplo projeto que resultou na montagem da peça A Missão, de Heiner Muller.
Esta é a página de um espetáculo selecionado no âmbito do projeto O teatro e a democracia brasileira. As informações nela contidas são de responsabilidade de Gisele Vasconcelos, excetuando-se o texto do curador do projeto, sendo esse de responsabilidade da Foco in Cena, proponente deste projeto. Caso encontre um erro ou divergência de dados, favor entrar em contato através do e-mail contato@focoincena.com.br