Escrita em 1947, é um mergulho denso no inconsciente familiar — uma tragédia brasileira em forma e espírito, marcada por paixões, mortes, desejos incestuosos e pela atmosfera fantasmagórica de uma sociedade à beira do colapso.
Nelson Rodrigues, como dizia Zé Celso, é um artista “dionisíaco, que estupra todas as máscaras sociais no cosmos da Vida Como Ela É”. Ele é “um outro”, para lá do bem e do mal, tão imenso quanto Shakespeare, Rimbaud e Oswald de Andrade.
Nesta encenação, o espaço cênico é atravessado por elementos audiovisuais, trilha original e ambientações sensoriais. Um coro de “putas do cais”, evoca Zé Celso, reforça o clima onírico e alucinatório da narrativa.
Ambientada em uma casa à beira-mar, onde o oceano é mais que cenário — é extensão simbólica da psique familiar — a peça propõe um mergulho nos limites entre realidade e delírio, desejo e culpa. A casa, impregnada de sal, luto e memória, torna-se um organismo vivo: respira com as marés, ecoa as vozes silenciadas, e revela as camadas subterrâneas de uma família dilacerada.
No centro da trama está Misael (Marcelo Drummond), juiz assombrado por segredos que emergem das profundezas da própria história. Ao seu redor, giram personagens tomados por impulsos inconfessáveis: Moema (Lara Tremouroux), a filha intensa e intuitiva, e Eduarda (Leona Cavalli), esposa e figura central de uma dinâmica familiar marcada por silêncio, poder e ressentimento.
Um espetáculo que convida o público a encarar seus próprios abismos.
A montagem recebeu 5 indicações ao Prêmio Bibi Ferreira, incluindo:
Melhor Peça de Teatro
Melhor Direção em Peça de Teatro (Monique Gardenberg)
Melhor Atriz Coadjuvante (Regina Braga)
Melhor Atriz Coadjuvante (Cristina Mutarelli)
Melhor Figurino (Cássio Brasil)