Espetáculo de teatro
Gente de Classe
De: Henrique Fontes, Pablo Capistrano e Quitéria Kelly
Com: Rafa Guedes, Thuyza Fagundes, Carol Cantídio e Quitéria Kelly
Direção: Quitéria Kelly
Realização: Grupo Carmin
Gente de Classe, espetáculo inédito do Grupo Carmin, estreia no Teatro Firjan Sesi Centro em 23 de julho, sob direção de Quitéria Kelly. A montagem cria uma sátira sobre a classe média em colapso, apostando no humor ácido para confrontar gênero, classe e fé em um país à beira de novas rupturas.
Inspirada nas leituras do sociólogo potiguar Jessé Souza, a dramaturgia constrói um recorte específico da classe média — urbana, escolarizada, moralmente ansiosa — que pode ser reconhecida em diferentes regiões do país. Em 2040, o condomínio de luxo Nova Canaã já não é apenas o endereço de uma família de classe média: tornou-se a metáfora de um país murado; conforto, discurso e medo convivem sob vigilância privada.
No centro da narrativa está uma mãe solo, que cria dois filhos dentro do condomínio blindado Nova Canaã. Ela encarna a contradição entre autonomia e sobrecarga, discurso progressista e prática conservadora. Ao seu redor, personagens majoritariamente femininas ampliam o debate: Maria, a inteligência artificial doméstica, e uma ativista do movimento revolucionário disputam o espaço privado e o espaço público.
A encenação tem uma estética assumidamente artificial, limpa e controlada, que reflete um mundo em que as relações humanas passaram a funcionar como um jogo permanente de performance. O cenário, composto por elementos minimalistas e modulares, deixa uma atmosfera "clean", asséptica e impessoal. A encenação se distancia da realidade analógica, com o uso de projeções mapeadas, ampliando a sensação de gamificação das relações pessoais, em que tudo é mediado por números, likes, rankings, barras de progresso, desafios e recompensas.
Com influência de beats eletrônicos, trap music e da pesquisa musical de Ian Medeiros, a trilha sonora ajuda na construção estética e crítica da obra, funcionando como mecanismo de distanciamento que interrompe a tensão dramática para permitir que o humor apareça e que a crítica social possa emergir de forma mais aguda. A direção de movimento acompanha essa lógica de artificialidade e controle: os corpos reproduzem gestos automatizados, poses de felicidade, dinâmicas coreografadas de convivência e comportamento performático.
Criada antes da pandemia, a peça foi retomada em 2024, quando o grupo percebeu que as tensões que a motivaram permaneciam ativas. O conteúdo político é assumidamente mais explícito, refletindo questões que continuam vivas na sociedade brasileira.