Espetáculo de teatro
O Ovo e a Galinha
De: Clarice Lispector (dramaturgia de Clarice Lispector, Joana Medeiros e Ana Hartmann)
Com: Ana Hartmann
Direção: Joana Medeiros e Ana Hartmann
Realização: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Quem passa pela orla do Leme e vê a estátua de Clarice Lispector homenageando a ilustre moradora pode não saber, mas nem sempre a zona sul carioca foi o lar da escritora no Rio de Janeiro. Dentre tantas moradas na capital fluminense, a Tijuca foi um dos bairros que primeiro acolheu a escritora ucraniana, e é por lá, no Teatro Ziembinski, que no dia 4 de setembro, às 20h, estreia uma rápida temporada de O Ovo e a Galinha. O espetáculo inédito é encenado e produzido por Ana Hartmann que, com Joana Medeiros, divide a direção cênica para o enigmático texto publicado em 1964 na coletânea "A Legião Estrangeira".
Transpondo o famoso conto de Clarice para os palcos, que parte da observação filosófica de uma mulher sobre um ovo na mesa da cozinha, o espetáculo passou por alguns formatos até chegar ao atual. Da performance realizada por Joana pela primeira vez em 2017, passando por apresentações na Holanda em 2019, ano em que Ana entrou nos estudos sobre o texto, até os ensaios abertos no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, em São Paulo, já com Ana como atriz, o espetáculo chega ao Rio de Janeiro em sua forma definitiva."Partimos de um acontecimento real, a leitura do texto que Clarice fez em 1975, durante o Primeiro Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia. A partir daí, tínhamos um lugar, uma personagem e uma ação muito clara: alguém tentando contar ao outro uma experiência pessoal tão profundamente transformadora que desestabiliza a própria noção de realidade", pondera Ana Hartmann, que enfrenta o desafio de dar vida à escritora e suas múltiplas facetas.
A resposta foi transformar esse fluxo de consciência na personagem Clarice e materializar os diferentes estados de sua consciência: a alucinação, a nudez, o silêncio, a euforia e o desespero diante do inefável. A montagem contou ainda com recursos de iluminação, som e o theremin, instrumento de sonoridade quase fantasmagórica, capaz de criar uma atmosfera espectral.
Para quem conhece o conto, um adendo importante: ele não foi mudado em nada para a encenação e é apresentado na íntegra. "Quem chega ao fim de 'O ovo e a galinha' não consegue escapar do seu magnetismo", finaliza Ana Hartmann.