A FARINHADA
Associação Cultural Joana Gajuru (AL)
Estreia: 1997
Página atualizada em 23/02/2026
Foto de autoria desconhecida. Informações para contato@trilhasdacena.com.br
Sinopse
Por um teatro do povo, da luta e das terras democráticas
O espetáculo A farinhada estreia em 1997 com realização do grupo alagoano Associação Teatral Joana Gajuru. Pensando sobre as estruturas sociais que alicerçam o Nordeste, a montagem conta com o texto do sociólogo alagoano Luiz Sávio de Almeida, dirigida por René Guerra. O espetáculo permaneceu com apresentações em diversas localidades do país até 2006 e foi remontado em 2013.
Narrando cenicamente a história de dois trabalhadores de uma casa de farinha localizada no interior de Alagoas, Rosa Maria e Pedro Bom são perseguidos pelo “coronel”. O debate temático é atravessado pelo patriarcado nos poderes dos grandes latifundiários das fazendas e engenhos do Nordeste. O “coronel-patrão” dono da casa de farinha explora esses trabalhadores e suas famílias através de seus assédios morais e sexuais.
A forma épica presente nas narrativas do cordel e dos repentistas populares vai relevando as tensões presentes nos dois personagens centrais e na forma da coralidade, representada pelos trabalhadores da casa de farinha (nas personagens Raimunda, Inácia, Chico Chalé e Antonio), que comentam os acontecimentos da história. Uma das primeiras cenas do espetáculo é a descrição da estrutura da casa de farinha a partir das partituras corporais do elenco. Assim vamos percebendo como aqueles corpos são triturados, moídos pela engrenagem dessa sociedade.
O autor Luiz Sávio de Almeida (1942-2023) foi um importante historiador alagoano que em sua obra dramatúrgica analisa as singularidades do capitalismo em Alagoas na segunda metade do século XX, principalmente a enorme dificuldade dos trabalhadores de transitar do rural para o urbano. Sua dramaturgia nos faz ver como o capitalismo estrutura o patriarcalismo nas margens da modernidade nordestina através dos seguintes textos teatrais: Comeram Dom Pero Fernão de Sardinha, Igreja verde, Festa das Alagoas, Libertad e Angola Janga, El tum tum tum del Corazón, Zé Lodaro como pano pinico veio americano e Berratório a São Francisco em fá de fava.
Ao lado dessa pesquisa temática tão contundente, aparece o diálogo estético com os espetáculos populares do Nordeste. Na montagem de A farinhada, a composição dessas formas brasileiras sustenta a encenação do grupo Associação Teatral Joana Gajuru. Este é um dos primeiros grupos de teatro de rua de Alagoas. Fundado em 1995, é um coletivo teatral que tem como principal característica a pesquisa e o uso dos elementos da cultura popular nordestina. Essa característica está presente nos quinze espetáculos montados pela associação, a exemplo de Uma canção de guerreiro no chumbrego da orgia (1995), A farinhada (1997), Fome come (2003), Baldroca (2004) e Versos de um lambe sola (2007).
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As cenas de A farinhada são entremeadas pelas diversas danças do Guerreiro, este folguedo alagoano, do ciclo natalino, surgido na década de 1920, como resultante da fusão de Reisados, Auto dos Caboclinhos, Cheganças e Pastoris. Vemos em cena as marchas, danças de abrição de portas, as entradas de sala e as despedidas. Todas essas formas passam por um processo de transfiguração cênica a partir das engrenagens sociais da casa de farinha presente no espetáculo.
O próprio nome do grupo parte de uma figura de luta do Guerreiro alagoano: é uma homenagem à mestra Joana Maria da Conceição (1866-1988), conhecida como Joana Gajuru, importante mestra de um grupo de Guerreiro que levava seu nome, do município de Maribondo, situado a cerca de 100 km de Maceió. Batizada Joana Maria da Conceição (1866-1988), tinha como apelido Gajuru, uma expressão da elite agrária para denominar negros e negras nascidos nos arredores da casa-grande.
Essa forma de debate estético-político a partir das formas populares do Nordeste nos faz lembrar o pensamento do teatrólogo Hermilo Borba Filho. Desde sua palestra “Teatro do povo”, proferida na noite de sua estreia como diretor artístico do TEP (Teatro do Estudante de Pernambuco) em abril de 1946, este autor pernambucano argumenta que “o teatro é feito para o povo, vive em função do povo, é uma arte popular, a mais democrática de todas as artes” (Borba Filho, 2005, p. 24-25). Para ele, nesse momento, o caráter popular é um espaço constante de luta:
Todo Nordeste é um drama de primeira grandeza, como a tragédia das secas, a escravidão do açúcar e o cangaceirismo. É o povo sofrendo, é o povo sendo explorado, é o povo lutando. São os dramas do povo, que a ele interessam, que ele compreende. É poesia viva, é poesia explodindo pela boca dos cantadores de ABC das figuras heroicas do sertão, das figuras lendárias de Manuel Izidoro, de Zumbi dos Palmares, de Lampião (…) que se faça teatro com esse material e a multidão sairá das feiras para as casas de espetáculo e daí partirá para as obras de elite. Que se acostume primeiro o povo com os dramas que vivem dentro do seu sangue. (Borba Filho, 2005, p. 28)
Esse teatro popular analisado acima por Hermilo Borba Filho e que está presente em A farinhada é uma cena de resistência democrática a partir da transfiguração dos elementos da tradição dos espetáculos populares do Nordeste. Essa poética cênica é extremamente significativa na constituição das companhias teatrais desta região, tais como o Grupo Imbuaça (Sergipe), Teatro Popular do Nordeste (Pernambuco), Raízes de Teatro (Piauí), Teatro Livre da Bahia (Bahia), Alegria, Alegria (Rio Grande do Norte), Quem Tem Boca é pra Gritar (Paraíba) Grupos estes que, tais como Associação Teatral Joana Gajuru, são ainda invisibilizados pela historiografia “oficial” do teatro brasileiro hegemônico.
Referência bibliográfica
BORBA FILHO, Hermilo. Diálogo do encenador – Teatro do povo, Mise-en- scène e A donzela Joana. Prefácios Luís Augusto Reis; Carlos Reis; Leda Alves. Recife: Edições Bagaço e Editora Massangana, 2005.
Wellington Junior é pesquisador e curador do projeto O teatro e a democracia brasileira.
ficha técnica
Direção: René Guerra
Assistente de direção: Flávio Rabelo
Texto: Luís Sávio de Almeida e Maclén Carneiro
Músicas: Maclén Carneiro
Música de abertura: Quinteto Harmorial
Voz: Edmilson Gomes
Iluminação: Jateles Miranda
Cenografia, figurino e maquiagem: Marcondes Lima
Confecção de figurino: Zuleide Dornelas
Execução do cenário: Raimundo Balta
Coreografia: Ana Cláudia Leite
Produção: Diva Gonçalves e Regis de Souza
Elenco: Ane Oliva, Denilson Leite, Eris Maximiano, Ivana Iza, Pierre Pellegrine, Reginaldo Meneses, Tereza Gonzaga e Therezinha Aciolly.
Elenco original: Denilson Leite, Diva Gonçalves, Eris Maximiano, Gertrudes Magna, Reginaldo Meneses, Regis de Souza, Tereza Gonzaga e Therezinha Aciolly.
Associação Cultural Joana Gajuru
Com uma trajetória exemplar de 30 anos, a Associação Cultural Joana Gajuru não apenas marcou o cenário cultural de Alagoas, mas também se tornou uma referência nacional em teatro e cultura popular. Originado em 1994, a partir de uma oficina de teatro de rua ministrada pelo grupo Imbuaça-SE, Joana Gajuru rapidamente floresceu como um farol da expressão artística, homenageando Maria Joana da Conceição, a mestra de Guerreiro.
Ao longo das quase três décadas de sua existência, o grupo se distinguiu como o mais premiado de Alagoas, acumulando uma série de reconhecimentos que testemunham sua relevância incontornável no tecido cultural tanto local quanto nacional. A essência do grupo reside na valorização da cultura popular de Alagoas e do Nordeste, sempre combinada com uma pesquisa rigorosa que enriquece cada novo projeto.
Especializado em Teatro de Rua e espetáculos de palco, Joana Gajuru expandiu seus horizontes para ser um catalisador da cultura, formando alianças artísticas multifaceta
Esta é a página de um espetáculo selecionado no âmbito do projeto O teatro e a democracia brasileira. As informações nela contidas são de responsabilidade de Waneska Pimentel da Cunha Pinto, excetuando-se o texto do curador do projeto, sendo esse de responsabilidade da Foco in Cena, proponente deste projeto. Caso encontre um erro ou divergência de dados, favor entrar em contato através do e-mail contato@focoincena.com.br