A luta de classes costuma acontecer longe dos palcos, mas, nesta história, fica claro como o esforço de muitos sustenta o poder de poucos. É desse ponto que nasce CÃO, a primeira parceria entre os premiados grupos nordestinos Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE). Embora inspirado na tragédia shakespeariana “Coriolano”, a peça não busca adaptá-la. O que se vê em cena é uma fábula contemporânea atravessada por elementos do realismo fantástico, comicidade e música.
A trama acompanha um grupo de trabalhadores de eventos: técnicos, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia e seguranças que, após dias preparando um teatro para a posse de um recém-eleito líder em uma jovem república, recebe uma notícia que desmonta toda a cerimônia: a morte do novo governante. A partir daí, abre-se um sem-fim de situações rocambolescas, desdobramentos absurdos e peripécias hilárias que incluem confusões políticas, protocolos impossíveis, desmandos surrealistas e a necessidade de reorganizar tudo em poucas horas.
CÃO revela a capacidade de transformar o caos em comicidade. O humor não alivia a crítica, mas a expõe. Cada atropelo, cada falha de comunicação, cada ordem descabida evidencia a precarização que vem atravessando as relações de trabalho no Brasil. Entre tropeços, correrias, confusões e descobertas, CÃO celebra aquilo que o teatro tem de mais vivo: rir da própria tragédia e seguir em frente, mesmo quando o protagonista morre antes mesmo de entrar em cena.