Recomendado por Daniele Avila Small (Questão de Crítica)
Senhora dos Afogados
De: Nelson Rodrigues
Direção: Monique Gardenberg
Realização: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Após grande sucesso de crítica e público, o Teatro Oficina leva ao Rio de Janeiro o espetáculo Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, com direção de Monique Gardenberg. Visto por mais de 50 mil pessoas em São Paulo, o espetáculo chega à cidade para a Semana de Arte e Cultura do Rio de Janeiro.
Escrita em 1947, a peça é um mergulho denso no inconsciente familiar. Uma tragédia brasileira em forma e espírito, marcada por paixões, desejos proibidos e morte. Senhora dos Afogados nos mostra uma sociedade à beira do colapso.
Nelson Rodrigues, como dizia Zé Celso, "é um artista dionisíaco, que estupra todas as máscaras sociais no cosmo da vida como ela é", "um outro" para lá do bem e do mal, tão imenso quanto Shakespeare, Rimbaud e Oswald de Andrade.
Nesta encenação, o espaço cênico é atravessado por elementos audiovisuais, trilha original e climas sensoriais. Um coro recorrente de "putas do cais" evoca Zé Celso e sua montagem operística, reforçando o clima alucinatório da narrativa.
Ambientada em uma casa à beira-mar, onde o oceano é mais que cenário, é extensão simbólica da psique familiar, a peça propõe um mergulho nos limites entre realidade e delírio, desejo e culpa. A casa, impregnada de sal, luto e memória, torna-se um organismo vivo: muda como as marés, ecoa as vozes silenciadas e revela as camadas subterrâneas de uma família dilacerada e de uma sociedade hipócrita.
No centro da trama está Misael (Marcelo Drummond), juiz assombrado por segredos que emergem das profundezas do passado. Ao seu redor, giram personagens tomados por impulsos inconfessáveis: Moema (Lara Tremouroux), a filha intensa, e Eduarda (Leona Cavalli), esposa e figura central de uma dinâmica familiar marcada por moralismo, poder e ressentimento.
Senhora dos Afogados é um espetáculo que convida o público a encarar seus próprios abismos.