Trilhas da Cena

Banner preto com texto em branco e vermelho "O Teatro e a Democracia Brasileira Parte Um" e logotipos da Funarte, do Ministério da Cultura e do Governo Federal do Brasil, além de informações sobre o programa e o financiamento.
Banner promovendo um projeto de teatro com logotipos da Funarte, do Ministério da Cultura e do Governo Federal do Brasil. O texto diz: "O Teatro e a Democracia Brasileira Parte Um" e menciona o Programa Funarte Retomada 2023 - Teatro.

E.L.A

Jéssica Teixeira (CE)

Direção: Diego Landin

Estreia: 2019

Página atualizada em 10/06/2026

Fotos de estúdio: Beto Skeff

Sinopse

Pudesse ser apenas um enigma. Mas, não. O corpo faz problema. O corpo dá trabalho. Pode ser muitos. Pode ser, inclusive, o que não queremos. O corpo será sempre o que ele quiser? É social. É político. É tecnológico. É inconsciente. Pensamento. Desejo. Invisível. Invasor. O corpo se despedaça. É estrutura. É movimento. Mas, sobretudo, é estranho. Eu sou o outro e a outra. Teimo e re-existo. Ele se degenera e E.L.A se faz impossível.

O contexto

O espetáculo E.L.A surgiu a partir da investigação cênica do corpo inquieto, estranho e disforme da atriz Jéssica Teixeira, e de que maneira o mesmo se desdobra e faz desestabilizar e potencializar outros corpos e olhares. Ao longo da pesquisa, surgiu também o livro O Corpo Impossível, da pesquisadora Eliane Robert Moraes, bem como Testo Junkie, de Paul B. Preciado,a fim de disparar dispositivos dramatúrgicos que expandissem a cena e nos referenciasse multiplamente sobre um corpo em diversas linhas: histórica, filosófica, empírica, mitológica, estética, sinestésica, ética. Nesse sentido, E.L.A tem como objetivo instigar em cada espectador a autopercepção, a autoconsciência, a autocrítica, a autoestima, a autoanálise e a autoimagem, a partir da relação de cada um com o próprio corpo, para uma melhor autonomia e emancipação do sujeito e, consequentemente, uma relação mais lúcida com o outro e com o mundo.

República em terceira pessoa

E.L.A é um solo da atriz e dramaturga cearense Jéssica Teixeira que estreou em 2019 e que teve uma ampla circulação, marcada por acolhimento crítico e político. Além da MITsp, a obra integrou festivais como Trema! Festival (PE), Festival Nordestino de Teatro (CE) e Circuito Cultura CE.  

 

Ao desmantelar o ideal de um corpo belo, performático e eficiente, Jéssica inscreve na cena outras formas de potência; se movendo entre figurações múltiplas: de diva pop a ciborgue, de criatura mítica a carne em estado bruto. Em tempos de políticas higienistas, de apagamento das diferenças, E.L.A propõe um outro regime de visibilidade: aquele em que o corpo, finalmente, se escreve com seus próprios termos. E, com isso, acaba por deslocar a posição de Outro. 

Esse deslocamento já é proposto desde a voz over que dá os anúncios antes do início da peça. Essa voz, que já estamos acostumados a ouvir, que nos instrui a desligar os celulares e nos informa quais foram as empresas e instituições que investiram na realização daquele evento, em E.L.A se estende. E, ao se estender, nos convida a ouvir com atenção o que diz: mantém a instrução de desligar os celulares, exceto quando o aparelho é usado como ferramenta amplificadora da qualidade da experiência, para pessoas com baixa visão. Nos convida a pensar que a arquitetura do espaço nos informa sobre as relações de poder presentes nas possibilidades de mobilidade e que apenas redistribuir os assentos, considerando as necessidades específicas, já torna a experiência naquele lugar mais inclusiva. E que todos se beneficiam do espaço ao torná-lo acessível. 

 

Se me demoro nessa descrição, é porque acredito que esse tempo não apenas faz parte do acontecimento como um todo, mas porque coloca o nosso corpo, o de espectador, num tipo de vulnerabilidade para a relação com a peça, como quem diz: eu sei que você não tinha pensado sobre isso. E, ao mesmo tempo em que nos envergonhamos, como público, pensamos também que esse texto inicial poderia, facilmente, tornar-se padrão para esse tipo de circunstância.

Transformando a si própria em sujeito e objeto de sua reflexão, a artista traz para o centro da discussão a herança eugenista na formação da nacionalidade brasileira e seu papel na construção do capacitismo entranhado na nossa estrutura social. Projeções atravessam o corpo da atriz, deformando-o, multiplicando-o, construindo atmosferas em que o corpo se torna outro — ou outros. 

Mas essas projeções se multiplicam na série de oposições que Jéssica cria e sustenta na peça. Além do próprio corpo, tratado como ELE, existe ELA que pensa sobre ELE. Desafia e é desafiada de volta. Existe o que é autobiográfico, na sua trajetória de análise, de como ELA e ELE se constituíram, quais são suas faltas e como passaram a se relacionar um com o outro. Mas também figura o que é histórico. Como se a personagem fosse despindo o capacitismo de suas facetas “moderadas” e “contemporâneas” — o corpo belo, o corpo saudável, o corpo magro etc. — até suas facetas “históricas” — o monstro, o disforme e a eugenia.

Discutir a eugenia é tocar nos pilares da república brasileira, que se fez a partir de um golpe militar, com a contribuição de uma elite que encontrou na eugenia as justificativas teóricas para perseguir um ideal de país violento e excludente. Assim como Jéssica Texeira, em E.L.A., desmantela a farsa do discurso sobre o corpo saudável e desejável, Diego Araúja, em Prontuário da razão degenerada, e a plataforma ÀRÀKÁ, em Experimento concreto questionam o vínculo entre a política manicomial, mestiçagem e o racismo; em todos os casos “provando” sua origem comum: a teoria eugenista e a fundação da República Brasileira. 

Laís Machado é pesquisadora e curadora do projeto O teatro e a democracia brasileira.

+ fotos

Fotografias de cena: Victor Augusto

Vídeos

Playlist

3 Vídeos

Equipe

Atriz, dramaturga e produtora | Jéssica Teixeira
Diretor | Diego Landin
Diretor de arte | Yuri Yamamoto
Diretor de videomapping | Pedrokas
Iluminador | Fábio Oliveira
Técnico e operador de luz | Uberson Gomes e Aline Rodrigues
Assistente de produção e contrarregra | Aris Oliver
Técnico e operador de som | Luma e Wescly Psique
Operadora de videomapping | Yanka Leandra
Textos | Jéssica Teixeira, Vera Carvalho e fragmentos de Eliane Robert Moraes e Paul B. Preciado
Consultora dramatúrgica | Maria Vitória
Figurinista | Yuri Yamamoto e Isac Bento
Cenotécnico | Marsuelo Sales
Vídeo clip | Gustavo Portela
Música do vídeo clip | “Saúde Mecânica” de Edgar
Coreografia do vídeo clip | Andréia Pires
Vocal coach | Priscila Ribeiro
Trilha Sonora | Diego Landin
*”Dancing Barefoot” por Fernando Catatau e Artur Guidugli
Escultores | Kazane, Cristiano Castro, Eliania Damasceno
Designer gráfico | Diego Landin | ERRATICA design
Assessor de imprensa | Aécio Santiago
Foto cartaz | Beto Skeff
Realização | Catástrofe Produções
Agradecimentos | Vera Carvalho, Kátia Landin, Edson Teixeira, Patrícia Soares, Victor Augusto, Clara Capelo, Rami Freitas, Kazane Blues, Eric Barbosa, Camila Osório de Castro, Nádia Fabrici, Comedores de Abacaxi S|A, Olga Nogueira, Valéria Nogueira, Raimundo Moreira da Costa, Átila Frank, Bruna Pessoa, Thalita Castelo Branco, Casa de Invento, Washington Hemmes, Igor Cavalcante, Silvia Moura, Pavilhão da Magnólia, Andrei Bessa, Gyl Giffony, Ricardo Guilherme, Viviane Rodrigues, Victor Carvalho.

Matérias

5 DE FEVEREIRO DE 2019 - Espetáculo E.L.A

Artigo

Qual corpo chega antes?

por Luciana Eastwood Romagnolli

 

O artigo coloca em contracena fragmentos de três peças brasileiras, estreadas nos anos 2010, por artistas que se servem do debate sobre gênero para se indagar sobre os efeitos dos discursos em seus corpos: Manifesto Transpofágico, de Renata Carvalho; E.L.A, de Jéssica Teixeira; e Vaga Carne, de Grace Passô. Diante das distintas operações pelas quais um ser falante se arranja com seu corpo, modos de aprisionamento e seus restos, propõem-se torções que questionam crítica e poeticamente esses enlaces, com base nas proposições psicanalíticas sobre o corpo falante decorrentes do último ensino de Jacques Lacan.

Croquis

Mapa de palco desenhado pelo diretor Diego Landin
Croqui de figurino desenhado pelo diretor de arte Yuri Yamamotto

Jéssica Teixeira

Jéssica Teixeira (Fortaleza, 1993) é atriz, dramaturga, diretora, produtora e roteirista. Licenciada em Teatro e Mestre em Artes pela UFC, sua criação parte da relação com o próprio corpo.

 

Em sua trajetória, a escrita sempre esteve atrelada à montagem cênica. Após experiência colaborativa com grupos do Ceará, passou a assumir o protagonismo no discurso do que iria à cena. Sua dramaturgia é política e concomitantemente absurda, alternando dados históricos, textos teóricos e uma pequena parcela de autobiografia, que se confunde com a ilogicidade da atual “vida real” e resulta em obras que são depoimento e performance, como por exemplo, em seu texto Partindo do princípio de que a Terra é plana, sou toda curva e desvio – ainda não publicado oficialmente.

Sua causa central é a luta contra o capacitismo, diminuindo apagamentos da pessoa com deficiência ao escrever a partir do seu contexto. Seus trabalhos incorporam acessibilidade como parte estruturante da criação.

 

Expandiu-se para o audiovisual com o longa documentário Assexybilidade (Globoplay) de Daniel Gonçalves, Lugar de falta (Itaú Cultural); com os curtas Noz Pecã, de Aline Gutiérres; Curva Sinuosa que teve a Direção de Andreia Pires.

Contatos do espetáculo:

Esta é a página de um espetáculo selecionado no âmbito do projeto O teatro e a democracia brasileira. As informações nela contidas são de responsabilidade de Jéssica Teixeira, excetuando-se o texto do curador do projeto, sendo esse de responsabilidade da Foco in Cena, proponente deste projeto. Caso encontre um erro ou divergência de dados, favor entrar em contato através do e-mail contato@focoincena.com.br

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