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Trilhas da Cena

O direito ao conforto linguístico

Língua é uma peça de teatro bilíngue e bicultural, criada em português e LIBRAS, por artistas ouvintes e artistas surdos, que teve sua estreia no Rio de Janeiro em junho de 2024 no Mezanino do Sesc Copacabana com patrocínio do Sesc Pulsar, edital de ocupação dos espaços de teatro do Sesc Rio. O projeto foi idealizado por Filipe Codeço, que está no elenco, e Vinicius Arneiro, que dirige a peça. A dramaturgia de Vinicius Arneiro e Pedro Emanuel, que conta com a interlocução de Catharine Moreira, artista surda, no trânsito entre português e LIBRAS, foi indicada ao 35º Prêmio Shell de Teatro.

 

A peça apresenta uma situação cotidiana, uma pequena celebração de aniversário em que os personagens envolvidos têm coisas importantes a dizer, mas não necessariamente sabem como se expressar. Um dos personagens é surdo e quase todos os outros são fluentes em LIBRAS – com exceção de um, que chega com visível desejo de dizer algo que não sabe como, nem na própria língua.

 

A escolha de Língua para a constelação de espetáculos do projeto O teatro e a democracia brasileira se deve ao movimento que a peça faz no sentido de ampliar as ideias de democratização do acesso ao teatro para a comunidade surda. Com isso, também é possível pensar que o espetáculo convida espectadores e artistas ouvintes a uma reflexão sobre o mundo, sobre o teatro como o conhecemos e sobre a complexidade da linguagem no trânsito entre línguas, mas também no trânsito entre afetos. A peça propõe ao público uma abertura do imaginário, colocando em suspensão o estigma da surdez como deficiência, ao compartilhar uma mirada sobre a vida a partir de uma outra cultura – e não a partir de uma falta.

A sociedade em que vivemos é toda projetada para ouvintes – o que não deixa de ser uma forma de exercício de supremacia. O teatro, que é parte dessa sociedade, não é diferente. Atores, atrizes, técnicos e produtores são ouvintes – isso é o que está mais visível – e esse também é o público que costuma ser público-alvo dos projetos. Ultimamente, tem se tornado cada vez mais comum a presença de intérpretes de LIBRAS nas peças, que ficam em um canto do palco, numa área apenas suficientemente iluminada para que uma pessoa (ou duas, que se revezam) interprete o texto simultaneamente para o português sinalizado. O endereçamento à comunidade surda costuma ficar restrito a esse canto, na periferia da cena. Não é o que acontece em Língua.

 

A peça coloca em cena uma criação poética em que a cultura surda e a cultura ouvinte estão entrelaçadas. Assim, o espetáculo se endereça tanto à comunidade surda quanto ao público ouvinte. Há lacunas para ambos os públicos, mas elas estão lá porque fazem parte das relações complexas, das conversas mais importantes, da expressão daquilo que não encontra tradução possível em nenhuma linguagem. Como se diz o que não se sabe dizer? A peça abre espaço para outras formas de expressão e interação que desistem de (ou simplesmente dispensam!) palavras e sinais. O cumprimento entre os personagens de Ricardo Boaretto e Filipe Codeço é um exemplo disso. A atuação dançada de Erika Rettl expressa a personagem e os afetos que a atravessam tanto quanto o que ela diz ou o que é dito sobre ela. Quando Jhonathas Narciso e Luize Mendes Dias interpretam uma canção, pode ser que o movimento, que faz os sinais tomarem a expressão do corpo todo, seja mais contagiante que a música. O momento de referência a uma coreografia de Pina Bausch proporciona mais uma camada de explosão: não são só os afetos mais angustiantes que são difíceis de traduzir, a alegria também pode escapar à formalização da linguagem que se esforça por fazer sentido.

 

Em uma conversa no canal do YouTube da Questão de Crítica, um depoimento de Ricardo Boaretto, ator surdo que faz o personagem protagonista, dá a dimensão do trabalho feito com a dramaturgia. Com as palavras da intérprete Lorraine Mayer (que também esteve presente durante o processo), ele expõe a dinâmica de responsabilidade compartilhada na articulação entre linguagens e culturas que se deu durante a criação:

A gente teve um cuidado muito sutil e detalhista, de pensar: essa palavra na língua portuguesa?… Não é só achar um sinal que seja equivalente na língua de sinais. É pensar culturalmente como essa palavra pode ser traduzida e entregar para o surdo um conforto linguístico – que é o que o ouvinte encontra quando ele ouve a dramaturgia.
Esse depoimento deixa evidente que a ocupação de espaços de invenção e reflexão crítica por parte de artistas surdos, no cerne dos projetos, amplia e melhora consideravelmente o endereçamento à comunidade surda. Isso já seria o suficiente para marcarmos a relevância ética, social, política e estética do projeto. Mas também vale pensar que não é só a comunidade surda que “ganha” com isso. A própria cultura do teatro se abre e amplia seu espectro de possibilidades criativas quando aprende a falar outras linguagens. E, sem dúvida, a nossa experiência de mundo se enriquece quando descobrimos que algo que se considera um padrão, é, na verdade, só mais uma caraterística, um aspecto que poderia ser diferente. A cada ideia de “norma” que se destrona, outras formas de viver se libertam do seu jugo.
 

Na conversa mencionada acima, Vinicius Arneiro descreve o processo de criação do espetáculo como algo desautomatizante. Essa é uma característica que também pode ser atribuída à experiência de fruição da peça. Língua desautomatiza o olhar, a escuta, os hábitos da percepção. Desautomatizar sensibilidades é uma ação que deveria estar na lista de desejos da construção de uma democracia, na base da metodologia dessa construção. O direito à fruição e à produção poética é também o direito à experiência e à invenção de mundos na vida cotidiana.

 

Nota: a conversa está disponível em https://www.youtube.com/live/bWT4kh6dN6E

 

Daniele Avila Small é coordenadora de pesquisa e curadora do projeto O teatro e a democracia brasileira.

programa

Sinopse

Uma mãe prepara a festa de aniversário para seu filho, um taxista surdo que cresceu rodeado de ouvintes. O encontro, que reúne um pequeno grupo de amigos do rapaz, revela os afetos, mas também os dilemas e a diferença cultural entre eles. Além disso, convida-nos a perceber como lidamos com a distância entre aquilo que se sente e a tentativa de dizê-lo.

Galeria de fotos

Fotos de Renato Mangolin

Vídeos

Teaser do espetáculo

Painel Questão de Crítica: Língua

Video do espetáculo na íntegra

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dramaturgia

clipping

idealização

Língua é um projeto de teatro bilícultural (LIBRAS/português) contemplado pelo SESC Pulsar e estreado em junho de 2024 no Mezanino do SESC Copacabana com direção de Vinicius Arneiro. A dramaturgia, escrita ao longo do processo criativo por Vinicius em parceria com Pedro Emanuel, contou com a interlocução da artista surda Catharine Moreira. Este é o segundo projeto idealizado por Vinicius Arneiro e Filipe Codeço onde voltam suas atenções aos paradoxos entre a cultura surda e a sociedade nos moldes em que vivemos. O primeiro projeto idealizado pela dupla foi Aquilo de que não se pode falar – contemplado pelo Rumos Itaú Cultural em 2020 e indicado a 4 prêmios APTR – uma obra escrita também em LIBRAS e português, onde o ator surdo Marcelo William da Silva compartilhava a cena com Filipe Codeço e Jhonatas Narciso. Em Língua essa pesquisa se desdobra e se aprofunda, tendo a interlocução de uma artista surda na dramaturgia e um elenco composto por um ator surdo e 3 outros ouvintes com fluência.

Ficha técnica e artística

Direção: Vinicius Arneiro
Dramaturgia: Pedro Emanuel e Vinicius Arneiro
Elenco: Erika Rettl, Filipe Codeço, Jhonatas Narciso, Luize Mendes Dias e Ricardo Boaretto.
Direção de produção: Juracy de Oliveira
Intérprete LIBRAS/Português e Transcriação: Lorraine Mayer
Interlocução dramatúrgica: Catharine Moreira
Interlocução gestual: Laura Samy
Assistência de direção: Dominique Arantes
Cenário: Julia Deccache
Direção musical: Felipe Storino
Iluminação: Daniela Sanchez
Figurino: Julia Vicente
Arte gráfica: Pedro Colombo
Produção executiva: Thais do Ó e Natally do Ó – Âmbar Produções
Fotografia: Renato Mangolin
Parceria: Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES
Idealização: Filipe Codeço e Vinicius Arneiro

Esta é a página de um espetáculo selecionado no âmbito do projeto O teatro e a democracia brasileira. A atualização dos seus dados, bem como as informações nela contidas são de responsabilidade da Foco in Cena, proponente deste projeto. Caso encontre um erro ou divergência de dados, favor entrar em contato através do e-mail contato@focoincena.com.br

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